Floripa – Política e Jabutis

Aqui em Florianópolis, esse movimento que se dizia “apartidário” rendeu uma cadeira na Câmara de Vereadores. Por incrível que pareça e ideologicamente contraditório, o partido escolhido pelo MBL- Movimento Brasil Livre, declaradamente de direita, foi o PSB – Partido Socialista Brasileiro, que tem como expoente em nosso estado, nada menos que os Bornhausen (não, não é piada).

A velha política numa nova roupagem não passou da primeira curva na longa estrada do pragmatismo eleitoral. O MBL desnudou toda a sua hipocrisia.

Apesar de todas as passeatas (as mais conservadoras que nos últimos anos essa cidade tinha visto), conseguiram eleger apenas um vereador.

Entretanto, não é esta a única consequência do levante de parte da classe média da “ilha da magia”, animado pelo discurso reacionário do MBL (evidenciado agora por interesses oligárquicos e partidários). Outros reflexos podem estar no recuo dos programas do governo e no discurso menos progressista das candidaturas à majoritária para a prefeitura em 2016.

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As candidaturas que foram ao segundo turno e precisavam dos votos para se eleger, não manifestaram o plano de desmonte do serviço público ou de diminuição do poder público. Passada a eleição, veio o pacotão com o intuito de impactar a gestão pública com seu desmonte planejado e favorecer a ideia de Estado Mínimo – algo bastante agradável aos seus patrocinadores.

A tônica mantida na atual gestão, do Gean do PMDB, partido que fez o golpe em nível federal para beneficiar a elite econômica nacional e internacional, é aquela das festas de verde amarelo nos domingos, organizadas por um movimento de garotos de classe média que desconhecem a realidade da maioria da população.

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Acontece que uma narrativa falaciosa tem dificuldade para se mater. Hoje, a população de Florianópolis começa a duvidar de uma gestão que não tem nada a oferecer além de um discurso de ódio dirigido aos que trabalham para sustentar suas famílias e de um discurso no estilo “fala mansa” para quem vive da especulação, do suor alheio.

Logo abaixo, você entenderá melhor o MBL, quem o financia e qual seu objetivo. Está tudo descrito na investigação de Marina Amaral, publicada no livro “Por que gritamos golpe?”, de Ivana Jinkings, Kim Doria e Murilo Cleto (orgs). O livro descreve muito bem a mobilização dos jovens de direita para atuarem como agitadores da rede social e levar parte da classe média brasileira às passeatas, vestidos com a camiseta da CBF (antro de corruptos), do pato amarelo da FIESP golpista, das panelas em percussão nas janelas dos prédios de elite. Leia:

Jabuti não sobe em árvore: como o MBL se tornou líder das manifestações pelo impeachment (por Marina Amaral)

 

“Depois que os protestos contra a alta nas tarifas de ônibus e metrô tomaram o país, em junho de 2013, uma juventude que não costumava se manifestar nas ruas começou a aparecer nos jornais. Os novos integrantes, logo apelidados de “coxinhas” pela juventude de esquerda, repudiavam as bandeiras vermelhas a pretexto de impedir a “partidarização” do movimento, e assumiam o verde-amarelo “de todos os brasileiros”. Condenavam os black blocs e exaltavam a polícia militar, que reprimira com violência os protestos convocados pelo Movimento Passe Livre. Suas principais bandeiras eram contra a “roubalheira” e contra “tudo isso que está aí”, paulatinamente substituídos por um simples “Fora PT”.

A imprensa foi atrás de entrevistas com as novas lideranças, sem esclarecer sua origem.

  • Alguns grupos eram fáceis de rastrear, como o Vem Pra Rua, de Rogério Chequer, ligado à juventude do PSDB e ao senador Aécio Neves.
  • Ou o Revoltados Online, francamente autoritário, que pedia a volta da ditadura militar enquanto faturava com a venda online de camisetas e bonecos contra o PT.
  • O mais obscuro deles era o Movimento Brasil Livre(MBL), que parecia ter brotado da terra para assumir a liderança daquele que se tornaria o movimento pró-impeachment nos anos seguintes.

O líder público do MBL, Kim Kataguiri, então um estudante de Economia de dezenove anos que fazia sucesso postando vídeos engraçadinhos no portal YouTube, foi alçado à condição de celebridade. De cabelos compridos e barbinha, cultivando uma imagem irreverente, Kim pretendia simbolizar a juventude “que saiu do Facebook para as ruas”, apesar da absoluta falta de novidade de suas propostas:liberdade absoluta para o mercado, privatizações, Estado mínimo e o fim das políticas públicas distributivas. Ou seja, o velho neoliberalismo, acrescido de toques “libertaristas” (libertarians, em inglês), expressos em faixas com dizeres enigmáticos como “Menos Marx, mais Mises”, referindo-se ao economista Ludwig von Mises, da Escola Austríaca, pouco conhecido até entre os acadêmicos.

A mídia não questionou a origem do movimento, descrito como espontâneo, tampouco a autenticidade da liderança de Kataguiri, hoje colunista da Folha de S.Paulo. Mas algumas informações comprometedoras sobre o MBL começaram a circular nas redes. O principal “boato” era de que o movimento era patrocinado pelos irmãos Koch,megaempresários americanos do setor petrolífero identificados com a extrema direita e que estariam interessados em desestabilizar o governo Dilma para se apossar do Pré-Sal. Pura paranoia da esquerda, respondiam nas redes os garotos do MBL, que se diziam financiados por pessoas físicas e faziam piadas sobre a ligação com os Koch.

Em março de 2015, a agência Pública passou a investigar a origem do MBL, que alcançaria seu auge nas manifestações daquele mês pedindo o impeachment da presidente Dilma “Rousseff. Três meses depois, a reportagem “A nova roupa da direita” comprovaria o laço entre os irmãos Koch e o movimento de Kataguiri. Por meio de entrevistas e documentos, a reportagem revelava que o MBL havia sido gerado por uma rede de fundações de direita sediada nos Estados Unidos, a Atlas Network, da qual fazem parte onze organizações ligadas aos irmãos Koch, como a Charles G. Koch Charitable Foundation, o Institute of Human Studies (IHS) e o Cato Institute.

Em duas décadas, essas fundações haviam despejado 800 milhões de dólares na Atlas Network, conforme informações obtidas na série de Formulários 990 entregues ao IRS (a Receita Federal americana). Isso sem contar as despesas com os fellowships e os cursos para formação de lideranças de estudantes, principalmente da América Latina e da Europa Oriental, nos Estados Unidos, realizados em parceria entre a Atlas e as fundações “liberais ou libertárias” que compõem a rede. Nos Estados Unidos, os libertarians têm posições mais avançadas em relação aos costumes do que a direita tradicional e são ainda mais radicais na defesa do livre mercado.

A Atlas é a mentora da Students for Liberty (SFL), uma organização estudantil internacional que cresce em ritmo espantoso. Desde 2008, quando foi fundada, seu orçamento passou de pouco mais 35 mil dólares para mais de 3 milhões de dólares em 2014, mais de um quarto deles proveniente das fundações dos Koch e da Atlas Network, que declarou gastos de 11,3 milhões de dólares em 2013. O Brasil passou a fazer parte da Students for Liberty em 2012, durante um seminário promovido pela Atlas Network em Petrópolis (RJ), e tem dois representantes no board da organização, composto de dez integrantes.

Os rapazes da Estudantes pela Liberdade (EPL) já tinham uma estratégia definida para participar dos protestos, como revelou à Pública o publicitário mineiro Juliano Torres, diretor-executivo da organização. Impedida de participar de manifestações pela legislação dos Estados Unidos (que proíbe a atuação política das fundações americanas) e sem querer perder o bonde da história, a EPL resolveu assumir um nome fantasia, “uma marca para a gente se vender nas manifestações”, como explicou Torres na entrevista. A “marca” era o Movimento Brasil Livre – e Kim Kataguiri, o escolhido para estrelar a campanha do MBL nas ruas.

Ao contrário dos diretores do EPL, como Torres e Fábio Ostermann, um cientista político gaúcho que assessora o também jovem deputado estadual Marcel van Hatten (PP-RS), Kim não havia feito os cursos de formação de lideranças promovidos pela Atlas. Também não era filho de empresários militantes da direita, como o arquiteto Anthony Ling, filho de William Ling (dono do grupo Évora, um dos patrocinadores do Instituto Millenium, o principal think tank da direita brasileira), e financiador da campanha de Van Hatten. O que interessava aos líderes do EPL era a capacidade de Kataguiri de atrair os jovens de classe média nas redes, assim como Fernando Holiday, escalado para o papel de “negro contra as cotas para negros” em debates e entrevistas para TV.

Nas manifestações de março de 2015, os garotos do MBL receberam um visitante ilustre em Porto Alegre. O argentino naturalizado americano Alejandro Chafuen, presidente da Atlas Network, não resistiu a postar uma foto no Facebook abraçado a Fábio Ostermann, ambos de camisa da seleção brasileira, comemorando “o sucesso dos parceiros da Atlas no Brasil”, em meio à multidão na capital gaúcha.

As manifestações em São Paulo também receberam uma visitante especial, essa sim uma verdadeira celebridade na internet. A guatemalteca Glória Alvarez, 32 anos, conhecida como @crazyglorita, esteve na Avenida Paulista, com direito a palanque no caminhão do Vem pra Rua em seu périplo pela América Latina, patrocinado por fundações da rede Atlas, do Chile à Venezuela, onde a Cedice, que tem Chafuen na vice-presidência, e o Instituto Cato, ligado aos Koch,financiam a oposição aos chavistas desde 1999.

Dias antes, Glorita havia participado de um seminário no Instituto Fernando Henrique Cardoso e de uma entrevista no programa de TV apresentado por Danilo Gentili, adepto entusiasta do movimento pró-impeachment e ídolo dos “coxinhas” brasileiros.

Glorita, Kataguiri e Alejandro Chafuen foram destaque também no Fórum da Liberdade em Porto Alegre, que se iniciou no dia seguinte às manifestações. O evento, anual, é patrocinado por grandes empresas do estado, como a RBS e a Gerdau, e é considerado o principal fórum dos neoliberais brasileiros. Durante três dias, cerca de 2 mil jovens da PUC-RS, uma das mais caras e melhores universidades do país, ouvem palestras sobre as virtudes do mercado e os pecados do comunismo, identificado com o PT na edição de 2015.

O fechamento do fórum ganhou tom de comício com a aparição “surpresa” de Kim Kataguiri, efusivamente cumprimentado por Chafuen. Subiu ao palco com o deputado estadual Marcel van Hatten, segundo ele o único representante do MBL no Legislativo. Van Hatten, que fez seus cursos de liderança no Acton Institute, controlado pela direita religiosa, jogou para a plateia: “A vanguarda, hoje, não é esquerdista, é liberal. O jovem bem informado vai para as ruas e pede menos Marx, mais Mises. Curte Hayek, não Lenin. Levanta cartazes hashtag ‘Olavo [de Carvalho] tem razão’”.

A miscelânea da “direita pós-moderna”, como definiu o professor Adriano Codato, do Observatório de Elites Políticas e Sociais do Brasil, estava exposta no fórum organizado por quatro fundações brasileiras ligadas à Atlas:

  1. o Instituto de Estudos Empresariais (IEE), fundado por Willian Ling, pai do jovem Anthony, do EPL;
  2. o Instituto Millenium, mantido pela Gerdau, pela Editora Abril e pela Pottencial Seguradora, uma das empresas de Salim Mattar, fundador do Instituto Liberal, representado no evento por Rodrigo Constantino, então colunista da Veja; e
  3. o Instituto Mises Brasil, presidido por Hélio Beltrão, do grupo Ultra.

Completam a lista das organizações brasileiras na rede da Atlas:

  1. o Instituto Ordem Livre, que já teve Ostermann na presidência, e
  2. o Centro Interdisciplicar de Ética e Economia Personalista, ligado ao Opus Dei, que tem no conselho o jurista Ives Gandra, autor do primeiro e controverso parecer sobre a existência de base jurídica para o impeachment da presidente Dilma.

Nesse cenário, o sexagenário carola que preside a Atlas, também ligado ao Opus Dei, rendia-se ao charme irreverente de Glorita, capaz de atrair multidões de fãs para o ideário liberal. “O corpo é a primeira propriedade privada que temos”, enunciava a guatemalteca ao defender o direito ao aborto e à liberdade sexual. “Um direitista do século XXI, que já se modernizou, tem de reconhecer que a sexualidade, a moral e as drogas são um problema de cada um; ele não é a autoridade moral do universo”, declarou, levando a plateia ao delírio.

Como o senador Ronaldo Caiado (DEM), arcaico líder ruralista que conseguiu levantar a juventude explorando seu repertório de xingamentos a Lula e Dilma, Chafuen sabe que tem de ceder os anéis para não perder os dedos. Na entrevista que concedeu à Pública, explicou a estratégia das fundações americanas que formam os jovens da direita no mundo todo.

“Nosso papel é o poder da nutrição. Esses seres humanos, nós os chamamos de empreendedores intelectuais, pessoas com novas ideias que enxergam soluções e decidem investir seu capital nisso. É como nos negócios. Então, damos a eles programas de treinamento, tentamos apoiá-los financeiramente, encorajá-los a ser muito sérios, não muito festeiros. Podemos oferecer algumas diretrizes, novas ideias sobre a sociedade livre, do liberalismo clássico ao libertarismo, de religiosos a ateus, cabe a cada pessoa escolher. Agora a juventude latino-americana deve estar olhando para o Brasil e se perguntando: podemos copiar os brasileiros?

“E os brasileiros? O que devem fazer?”, Marina Amaral perguntou. Ele foi modesto.

“Vindo de fora é difícil dizer, isso é específico de cada país. Veja a Espanha hoje, em que os partidos perderam terreno para novos movimentos como o Podemos, de esquerda, ou seu oposto na Catalunha, o Ciudadanos. Nos Estados Unidos, por exemplo, temos o Tea Party, um movimento espontâneo que, em vez de fundar um partido, preferiu se tornar uma tendência muito influente dentro de um partido [Republicano].”

Kataguiri e seus mentores do EPL ainda dariam muitas alegrias a Chafuen, aproximando-se do presidente da Câmara, Eduardo Cunha, para costurar o impeachment e mantendo a estridência das massas que tentaria lhe dar respaldo. Também pressionou por apoio ao movimento nos partidos tradicionais. De acordo com um áudio vazado recentemente de líderes do MBL, os partidos PMDB, PSDB, DEM e Solidariedade financiavam panfletos, caravanas e lanches em manifestações. Os partidos negam, mas os jornalistas Pedro Lope e Viícius Segalla confirmam, “Áudios mostram que partidos financiaram MBL em atos pró-impeachment”, Folha de S.Paulo, 27 maio 2016; disponível online.”

 

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